História do cavalo sem dentes ( da prisão para o mundo)

Uma carta de um recluso (anónimo) numa prisão portuguesa,

Apontamento: Uma das reinvidicações dos detidos portugueses é na alimentação. Hoje em algumas prisões portuguesas por semana um recluso só pode receber 1kg de comida do exterior por semana. Dá que pensar…

História do cavalo sem dentes

É com surpresa que me encontro em clausura, passado tantos anos após os factos ocorridos  e não querendo de maneira nenhuma fugir às minhas responsabilidades, estas que pelo lado jurídico tardaram a chegar como se não tivesse o direito de seguir minha vida e tentar ser alguém com um futuro livre. Hoje, sendo um homem adulto e pai de dois belos rapazes, vejo-me a ser tratado como um qualquer marginal, coabitando com todo o tipo de pessoas, umas más e outras quase boas. Vejo homens que no auge da sua juventude defenderam a pátria além mar, hoje velhos farrapos são aqui jogados, surdos e abandonados. A assistência «médica» é feita por companheiros de cela, tal como a higiene íntima e banho, feita por caridade de companheiros e amigos.
Basta!! Está na hora de verem que se tratam de pessoas, seres humanos, jovens de vinte anos, que só dependem dos avós, aqui presos sem voz!! seropositivos, a quem se negam cortar o cabelo por medo de contágio!! Ainda bem que a estupidez e ignorância não são contagiosas.
Somos vinte numa camarata com um urinol e uma sanita, dois chuveiros e outros tantos lavatórios.
Homens que após o desligar das luzes caem do beliche e só no dia seguinte têm algum tipo de auxílio. Não, não sou de classe alta, muito menos de classe baixa. Sou sem classe, e por isso não tenho interesse em agradar a ninguém, a não ser a verdade. É a verdade que me faz lutar pela igualdade e liberdade. Liberdade essa que me foi sempre negada!!
À minha querida companheira, aos meus filhos e meus cães sempre estarei grato por todo o amor que me têm dado, mas mais uma vez falho pois estou ausente e impedido de retribuir esse amor. Mas, meus queridos, prefiro morrer de pé do que ter de viver ajoelhado! Aqui preso fisicamente, mas livre mentalmente, vou fazer aquilo que sempre me ouviram dizer: «lutar até morrer». A cor da liberdade aprendi na puberdade, e agora querem me dizer que até o arco-íris é a preto e branco! Pobre homem, que só lutas pela casa, o carro, o dinheiro virtual, e já nem notas que te tratam pior que um animal, e com a medicação, oferta da nação, lutas menos que um tomate ao ser arrancado do chão. Ris-te ao ouvir o poeta a falar dos vampiros e do sangue fresco da manada pois isso a ti não te diz nada… mas choras com as novelas e futeboladas…. ó triste manada, presa e enganada e ainda pra mais “over medicada”, até mesmo esquecida e abandonada.
Mas quem sou eu, para falar de manadas? Eu não passo de um «zé ninguém» que muito cedo perdeu o pai e quase ficou sem mãe. A ti minha querida mãe não posso dizer onde estou, tal como não digo aos meus filhos, e agora entendo as tuas lágrimas nas visitas que te fiz em Tires, quando chegava e quando partia, e o mesmo se passava nas visitas ao meu pai, mas nessas tu continuavas a ser violada, pois ele só queria os pacotes e mais nada, ó heroína marada eras e continuas a ser o pasto predilecto da manada!!
Mas chega de passado e retorno ao presente, que me está a deixar doente e não é por quase já não ter dente mas sim por ver o homem como o eterno parasita, e nada faz para mudar a condição, porra lá prá manada!!!
Amo e respeito a liberdade, tanto a tua como a minha, e foi me assim retirada… com que vontade volto eu a olhar para a luz do luar sem me lembrar deste lugar? Essa luz lunar que me anda a escapar e já me fez chorar… tal como o brilho do sol, que aqui parece esmola dada ao pobre, sabe sempre a pouco mas aquece o olhar e o coração e me leva para perto da minha paixão, nas asas do gavião que nos sobrevoa ao fim do serão!!
Mas estas letras, a sua finalidade era outra, seriam para falar das condições em que habito nesta reclusão e das greves constantes dos “guarda chaves” em luta por mais condições, mas claro, nessa luta quem se lixam são as superpopulações, mesmo que vivam sem condições. Mas sem condições vivi eu e aqueles que mais tinha no coração: pai, mãe, irmãs, irmãos, e no presente que está todo embrulhado na minha amada e nossos dois anões! A vós, realmente peço os mais sinceros dos perdões, entre grades e gradões, encurralado com a restante manada de galifões, gatos e supostos malandrões. Ao poeta agradeço de todo coração quando me ensinou “ a tirar os olhos do chão, e ver a luz”, aos meus filhos, mulher e queridos cães peço paciência e perdão por ter sido um puto malandrão e gostar de andar de charro na mão, sendo esse o motivo da minha prisão!!
Não me calo, nem me calarão, mesmo quando estiver debaixo do chão, as minhas palavras voarão pois foram escritas com verdade e paixão e com a chama que trago dentro do coração! A raiva que sinto é só ás más leis que regem esta suposta nação… e maldito seja este negócio que se chama prisão!

A primeira vez que entrei numa prisão, perdi a companheira e primeira “cria”, hoje um rapazão com 16 anos, mas que infelizmente não conhece o pai “o cavalão”, só ouviu falar do zé bandido, drogado e mandrião… não do lutador, armado em poeta e meio sonhador. Essa dor espero nunca a repetir, pois se perco os meus sóis, a minha lua e as minhas estrelinhas caninas, entrego-me ao combate armado e esqueço o zé poeta iletrado!! Porra, dói estar condenado, mas mais dói ver que é um caso errado, o pior que fiz foi tentar ser feliz e ao olhar à minha volta vejo que o mundo em que nasci e habito está cheio de vómito do homem que sonha ser patrão e maltrata o seu irmão, arranja combates com o “seu” cão e tudo isto só para ter mais umas notas na mão. E eu que já comi com o Deus Cão e chorei ao ver o Belo por ele me dar a mão, digo e repito: abaixo as leis desta suposta nação. Amo e respeito a liberdade de todo o meu coração, meus filhos, mulher e cão, amigos de porro na mão!

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