Educação e Luta de classes. (Na comunidade primitiva)

A origem da Familia, da Propriedade Privada e do Estado.

È esta sociedade que um anaquista primitivista defende. Se queres conhecer ou acreditar ou desacreditar. Escolhe um ponto por onde começares. Neste texto fica-se a saber como começou a sociedade machista, a propriedade privada, os primeiros policias, o inicio das religiões, das cidades, do sedentarismo, das hieraraquias, da escolaridade seletiva e obrigatória. Como se iniciou o comercio, a escravatura o trabalho.

Sem autoridade, sem poder, sem religião.

05 - Primitivo 01

A “EDUCAÇÃO” NA COMUNIDADE PRIMITIVA

Os índios norte-americanos viviam numa coletividade pequena, assente sobre propriedade comum da terra e unida por laços de sangue, os membros eram indivíduos livres, com direitos iguais, que ajustavam as suas vidas às resoluções de um conselho formado por todos os adultos, homens e mulheres, da tribo. O que era conseguido em comum era repartido por todos, e imediatamente consumido. O pequeno desenvolvimento dos instrumentos de trabalho impedia que se produzisse, mais do que o necessário, portanto, a acumulação de bens.

Como de baixo do mesmo teto viviam muitos membros da comunidade, e às vezes a tribo inteira – a direção da economia domestica, entregue às mulheres, não era, como acontece entre nós, um assunto de natureza privada, mas sim uma verdadeira função pública, socialmente tão necessárias quanto a de fornecer alimentos, a cargo dos homens.

Entre os bosquímanos atuais, as mulheres, além de cuidarem do acampamento, recolhem bagas, larvas, formigas, gafanhotos, etc…, e são tão conscientes da igualdade dos seus direitos, chegavam a não dar o que colhiam aos homens, se estes fracassassem na caça.

Na comunidade primitiva a mulher estava em pé de igualdade com o homem, e o mesmo acontecia com as crianças. A educação das crianças estava confiada à vigilância difusa do ambiente.

Presa ás costas da mãe, a criança percebia a vida da sociedade que a cercava, ajustando-se ao seu ritmo e às suas normas e, como a sua mãe andava sempre de um lado ao outro e o aleitava durante vários anos, a criança adquiria a sua primeira educação sem que ninguém a dirigisse expressamente.

Usando um terminologia a gosto dos educadores atuais, diríamos que, nas comunidades primitivas, o ensino era para a vida e por meio da vida.

Estamos tão acostumados a identificar a escola com a educação, e esta com a noção individualista de um educador e um educando, que nos custa um pouco a reconhecer que a educação na comunidade primitiva era uma função espontânea da sociedade nos seu conjunto, da mesma forma que a linguagem e a moral.

E, do modo que é óbvio que a criança não precisa de recorrer a qualquer instituição para aprender a falar, também devemos reconhecer como não menos evidente que, numa sociedade em que a totalidade dos bens está a disposição de todos, a silenciosa imitação das gerações anteriores pode ser suficiente para ir levando a uma meta comum a inevitável desigualdade dos temperamentos individuais.

O homem, enquanto homem, é social, isto é. está moldado por um ambiente histórico de que não pode ser separado.

Uma vez que na organização da comunidade primitiva não existiam graus nem qualquer hierarquia, o primitivo supôs que a natureza também estava organizada desse modo, por esse motivo, a sua “religião” foi uma religião sem deuses.

tumblr_inline_mgj4nmFZEG1rzk56x

Os primitivos acreditavam em forças difusas que impregnavam tudo o que existia, da mesma maneira que as influências sociais impregnavam todos os membros da tribo.

Com o idioma que aprendiam a falar, recebiam certa maneira de associar ou de idealizar, com as coisas que viam e com as vozes que ouviam, as crianças impregnavam-se das ideias e dos sentimentos elaborados pelas gerações anteriores e submergiam de maneira irresistível numa ordem social que as influenciava e moldava. Nada viam e nada sentiam, a não ser através das maneiras consagradas pelo seu grupo. A sua consciência era um fragmento da consciência social , e desenvolvia-se dentro dela.

Este conceito de educação, como uma função espontânea da sociedade, mediante a qual as novas gerações se assemelham às mais velhas, era adequado para a comunidade primitiva, mas deixou e sê-lo à medida que esta se foi lentamente transformando numa sociedade dividida em classes.

O aparecimento das classes sociais teve, provavelmente uma dupla origem: o escasso rendimento do trabalho humano, e a substituição da propriedade comum pela propriedade privada.

IAV072__16081_zoom

Com as rudimentares técnicas da época, o trabalho material era de tal modo cansativo que o individuo que se dedicava ao cultivo da terra, não podia se desempenhar, ao mesmo tempo, nenhuma das outras funções que a tribo exigia.

No Egito existem gravuras onde se pode ver um rei a escavar um canal de irrigação com as suas mãos, na literatura egípcia, veremos que o Faraós é sempre celebrado como o que irriga e cultiva. Essa intima ligação existente entre os monarcas egípcios e a agricultura do país demonstra de que modo as usas funções derivavam em grande parte da necessidade de centralizar o controlo dos canais de irrigação.

As forças místicas que o primitivo supunha existirem nos seres inanimados e nos animais representavam um caráter caprichoso e um humor difícil.

Um funcionário – sacerdote, médico e mago, aconselhava, protegia e curava os membros da tribo.

A divisão da sociedade em administradores e executores não teria levado à formação de classes, tal como hoje as conhecemos, se outro processo paralelo não tivesse ocorrido ao mesmo tempo. As modificações introduzidas na técnica – especialmente a domesticação de animais e o seu emprego na agricultura, como auxiliares do homem – aumentaram de tal modo o poder do trabalho humano, que a comunidade, a partir desse momento, começou a produzir mais do que o necessário para seu próprio sustento. Apareceu um excedente de produtos, e o intercâmbio desses bens, que até então era exíguo, adquiriu de tal vulto que se foram acentuando as diferenças de “fortuna”.

Cada um dos produtores, aliviado um pouco do seu trabalho, passando a produzir para as suas próprias necessidades e também para fazer trocas com as tribos vizinhas. Surgiu pela primeira vez a possibilidade do ócio, ócio fecundo, de consequências remotas, que não só permitia fabricar outros instrumentos de trabalho e buscar matérias primas, como também refletir sobre essas técnicas. Por outras palavras: criar os rudimentos mais grosseiros daquilo que, posteriormente viria a chamar-se ciência, cultura, ideologias.

frase-a-posse-de-ocio-pressupoe-uma-perfeicao-de-dominio-sobre-a-natureza-que-se-nao-podera-agostinho-da-silva-154534

Com o aumento do seu rendimento, o trabalho do homem adquiriu certo valor.

As comunidades mostravam-se tão incapazes de assegurar a alimentação de indeviduos além do certo numero que, quando uma tribo vencia outra, apoderava-se das riquezas desta, mas também matava todos os seus membros, porque recebe-los no seu seio seria catastrófico. Mas, tão cedo o bem-estar da tribo aumentou, por causa das novas técnicas de produção, os prisioneiros de guerra passaram a ser desejados, e o inimigo vencido passou a ter a sua vida garantida com a condição de transformar-se escravo. À medida que cresciam os rebanhos, maior era a necessidade de indivíduos que cuidassem deles, mas, como a reprodução dos animais era mais rápida do que a humana, era óbvio que apenas a tribo, com a sua natalidade, não poderia satisfazer a mencionada exigência de braços. Agora incorporar indivíduos estranhos à tribo, para explorar o seu trabalho, era, ao mesmo tempo, necessário e possível. As funções do administrador passou a ser hereditária, e a propriedade comum da tribo – terras e rebanhos – passou a constituir propriedade privada das famílias que a administravam e defendiam. Donas dos produtos, a partir desse momento as famílias dirigentes passaram também a ser donas dos homens. A sociedade começou a dividir-se me classes, a propriedade passou a ser privada e os vínculos de sangue retrocederam diante do novo vinculo que a escravidão inaugurou: o que impunha o poder do homem sobre o homem.

Com o desaparecimento dos interesses comuns a todos os membros iguais de um grupo e a sua substituição por interesses distintos, pouco a pouco antagónicos, o processo educativo que até então era único, sofreu uma repartição: a desigualdade económica entre os organizadores – cada vez mais exploradores – e os executores – cada vez mais explorados – trouxe, necessariamente, a desigualdade das educações respetivas.

As famílias dirigentes, retinham em suas mãos a distribuição e a defesa, organizavam e distribuíam também, de acordo com os seus interesses, não apenas os produtos, mas também os rituais, as crenças e as técnicas que os membros da tribo deviam receber.

Mas se o advento das classes sociais, foi uma consequência inevitável da escassa produtividade do trabalho humano, também não é menos certo que os que se libertaram do trabalho manual aproveitaram a vantagem conseguida para defender a sua situação, não divulgando os seus conhecimentos, para prolongar a incompetência das massas e, ao mesmo tempo, assegurar a estabilidade dos grupos dirigentes. Nos primeiros tempos da comunidade primitiva, qualquer um podia ser, momentaneamente, juiz e chefe, mas, agora que a estrutura social começava a complicar-se, certos conhecimentos passaram a ser requeridos para o desempenho de determinadas funções, conhecimentos esses que os seus detentores começaram a apreciar como fonte de domínio.

Cada organizador educava os seus parentes para o desempenho do seu cargo, e predispunha o resto da comunidade para que os elegesse.

Para os que nada tinham, restava o saber do vulgo; para os afortunados, o saber da iniciação.

Os magos, os sacerdotes e os sábios – primeiramente depositários e, posteriormente, donos de saber da tribo – assumem a pouco e pouco, juntamente com a função geral de conselheiros, a função mais restrita de iniciadores.

Da mesma forma, começa a haver uma hierarquia em função da idade, acompanhada de uma submissão autoritária que exclui o antigo tratamento benévolo demonstrado para com a infância, ao mesmo tempo que surgem as reprimendas e os castigos.

images

Quando a comunidade primitiva ainda não se havia dividido em classes , quando a vida social era sempre igual a si mesma e diferia pouco do individuo para individuo, a própria simplicidade das práticas morais colocava-as sem esforço sobre o caminho do hábito, e não era necessário qualquer disciplina.

Estudando 104 sociedades primitivas, Steinmetz verificou que apenas 13 delas a educação era severa, Mas, o interessante é notar que esses 13 povos já eram relativamente mais civilizados do que os outros.

A educação sistemática, organizada e violenta, surge no momento em que a educação perde o seu primitivo caráter homogéneo e integral.

A primitiva conceção do mundo como uma realidade ao mesmo tempo mística e natural, é agora substituída por uma outra conceção, em que se reflete a mesma noção de hierarquia que apareceu na estrutura económica da tribo: deuses dominadores e crentes submissos dão uma matriz original às novas crenças da tribo. Crenças tão diretamente ligadas à essência das classes sociais, que a continuação da vida depois da morte passa mais tarde a ser um privilégio dos nobres.

Não é necessário dizer que a educação imposta pelos nobres se encarregava de difundir e reforçar esse privilégio.

Não pensavam diferente as classes dirigentes Incas. Tupaque Iunpanqui afirmou que não era lícito ensinar às crianças plebeias as ciências que pertencem aos nobres, para evitar que “gentes baixas se elevem, se ensoberbem, desprezem e apoquentem a republica; para elas é suficiente aprender os ofícios dos seus antepassados, porque o mandar e o governar não são coisas próprias de plebeus, ao mesmo tempo que seria um agravo à republica e à profissão permitir que os plebeus façam essas coisas”. Os Taoistas da China acreditavam que não se devia conceber o saber ao homem do povo, porque ele desperta desejos, afirmando que ao homem do povo bastariam “músculos sólidos e vontade escassa, estômago satisfeito e coração vazio’”

 

Na comunidade primitiva o matriarcado sempre aparece junto a essas formas de comunidade fundadas na propriedade comum do solo. Mas quando a domesticação de animais provocou um aumento da riqueza social, a propriedade privada começou a substituir a coletiva. Para assegurar a perpetuidade da riqueza privada através das gerações e o beneficio exclusivo dos seus próprios filhos – e não dos filhos dos outros, como ocorreria se o matriarcado tivesse subsistido – a filiação paterna substituiu a materna, e uma nova forma de família, monógama agora, apareceu. Com ela a mulher foi relegada para segundo plano, passando a ocupar-se somente de funções domésticas, que deixaram de ser sociais. A mulher que antigamente, quando, juntamente com o homem, desempenhava funções úteis à comunidade, gozava dos mesmos direitos que este; mas perdeu essa igualdade e passou à servidão no momento em que ficou afastada do trabalho social produtivo, para cuidar apenas do seu esposo e dos seus filhos. A sua educação, ao mesmo tempo, passou a ser uma educação pouco superior à de uma criança.

thump_2640492matriarcado

No momento em que surgem a propriedade privada e a sociedade de classes, aparecem também, como consequências necessárias, uma religião com deuses, a educação secreta, a autoridade paterna, a submissão da mulher aos filhos, e a separação entre trabalhadores e os sábios. Os defensores armados das obras de irrigação ou dos depósitos de viveres passaram a ser os servidores aramados do patriarca, do rei ou do “saquem”. O soberano e a sua família, os funcionários, e os magos, os sacerdotes e os guerreiros, passaram, desde esse momento, a constituir uma classe compacta, com interesses comuns, em grande parte opostos aos do grupo local.

Mas, ainda faltava uma coisa: uma instituição que não só defendesse a nova forma privada de adquirir riquezas , em oposição às tradições comunitárias da tribo, como também legitimasse e perpetuasse a nascente divisão em classes e o direito de a classe proprietária explorar e dominar os que nada possuíam. E essa instituição surgiu: o Estado.

Convinha aos interesses dos ricos revesti-lo de um halo religioso. Guerreiros e escribas, sacerdotes e artistas contribuíram para criá-lo. Desde a pirâmide impotente, até à cerimónia pomposa, tudo contribuía para reforçar esse prestigio, para infundir na alma das massas o caráter divino das classes abastadas. As crenças na superioridade das classes dirigentes esboroar-se-iam com o tempo, se não fossem periodicamente reavivadas.

A religião, a arte e a sabedoria hipnotizavam-nas diariamente com uma exaltação das classes governantes. Existia uma escrita sagrada, e outra profana, uma musica das grandes e outra dos miseráveis, uma imortalidade para aqueles e uma mortalidade para estes e , alem disso, o desenho do corpo humano variava de acordo com a hierarquia social do retrato.

Já vimos os modos de atuação da religião e da arte para podermos compreender de que modo a educação ministrada pela classe dominante sufocava, com variados recursos, as possíveis rebeldias das classes dominadas. Mas como aqui interessa, em especial, a conduta dos conselheiros e dos iniciadores da tribo, escolhamos um fato que mostre bem de que modo a sabedoria uniu, desde o início, o seu destino ao das classes opressoras.

jfgjfgaa

Texto realizado a partir do livro: Educação e Luta de Classes; Anibal Ponce, 1934

About these ads
Esta entrada foi publicada em PRIMITIVISMO com as etiquetas , . ligação permanente.

Deixar uma resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

WordPress.com Logo

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Log Out / Modificar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Log Out / Modificar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Log Out / Modificar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Log Out / Modificar )

Connecting to %s